Conecte-se a nós

DEMASIADO | Fadas injustiçadas

Foto: Reprodução

Demasiado

DEMASIADO | Fadas injustiçadas

Reles são os seres vítimas da moda. Vulgares são os seres que atropelam a si mesmos com indumentárias que violam a sua própria integridade. Muitos incomodam a indústria da Moda não por não aceitarem o mais alto dos cachês, o publipost mais descarado da semana, ou recusar ser presença na fila A de um badalado e disputado desfile, mas por permanecerem fiéis a si mesmos. Por entenderem quem são, mesmo que isso contrarie profecias messiânicas, mesmo que se atrevam a não sucumbir a um senso comum incorruptível.

Anna Wintour, a mais importante editora-chefe da história da Condé Nast, obrigou Oprah Winfrey a perder alguns
quilos para ser digna de uma capa da Vogue, como se a influência e a importância de Oprah pudessem ser medidos por um exame de bioimpedância. Christian Dior já decretou como se fosse lei, que a bainha da saia deveria reduzir 40 centímetros do chão, e assim acataram em 1952. O ‘new look’ estava criado em um tempo onde havia uma hierarquia de poder. A aristocracia fashion coercivamente deixava no imaginário popular o que seria moda ou não. A Moda não pode ser um livro sagrado e nem nós precisamos fundar um templo, ou uma igreja – desde que seja belo e moral pagarmos impostos, ao contrário de Domenico Dolce e Stefano Gabbana – não precisamos dar nenhum tipo de dízimo, guarde o seu precioso e suado vintém e evite escravizar ainda mais mulheres e crianças do sudeste asiático, adquirindo algo em uma rede de fast-fashion.

Durante anos vi fadas se tornarem ícones, mas não com a imediata aclamação de público e crítica. Levou um tempo para que o grande público e até mesmo essa grande indústria olhassem essas fadas com outros olhos, alguns continuam com o mesmo olhar. Olhos que não fossem de desdém ou petulância. Beyoncé, por exemplo, andou muito por essas vilas até merecidamente ser considerada um ícone da moda. Seu corpo curvilíneo e sua ancestralidade sulista-crioula, pouco ajudavam em uma terra dominada por mulheres com traços eurocêntricos
e escravas de coca-cola light. No começo de sua carreira, não conseguia uma roupa assinada por algum estilista do establishment da Moda. Muitos a consideram brega, e mesmo que isso seja verdade, ela deve esconder quem é? O que é ser brega? Há algum tempo, tive o desprazer de ler alguns comentários na internet em que diziam que ela (Beyoncé), tornaria qualquer “Hermés” uma roupa de loja de departamento (sic). Então ela deve usar seu corpo e a moda como uma extensão de expectativas e normativas de outras pessoas, ou com o propósito de auto-expressão?

A mesma coisa, Jennifer Lopez. Latina e subjugada muitas vezes pelo seu excesso pecaminoso aos olhos da nobreza da Moda. Lopez chocou pela primeira vez a imprensa usando um vestido Versace ricamente estampado, com um decote indo até a virilha, no tapete vermelho do Grammy em 2000. Dia desses – uns anos atrás – estava vendo uma matéria no canal GNT e uma ditad…digo, consultora de moda analisando o estilo de algumas famosas e eis que Lopez é trazida à pauta. “Horrendo. Muitos detalhes, muito brilho, muito latina…(sic)”. Oras, ser latina não é justamente o que Lopez é e representa? Há algo ruim em ser latina? Valha-me Deus! Parece que todas deveriam ou teriam de desejar fazer parte da narrativa eurocêntrica da Moda, como se a única coisa de relevante viesse dali. Outro exemplo a ser citado, foi Lupita Nyong’o em uma matéria qualquer do site Petiscos. Na ocasião, Lupita foi em uma das edições do MET Gala trajada de um vestido tribal, feito por Miuccia Prada e segundo a matéria do site, Lupita mais parecia fantasiada de galinha de macumba. É assombroso o nível de ignorância, quanto o de racismo. Mas viremos o capítulo e a página, porque o que vestimos não serve para atender os interesses de ninguém a não ser de nós mesmos.

View this post on Instagram

You better work! #MetGala

A post shared by Lupita Nyong'o (@lupitanyongo) on

Permita-se rir de gurus fashion que dizem que ‘o amarelo está em alta’, que você deva usar isso ou aquilo, como se o risco fosse da bolsa de valores, não o que você se sente confortável em usar, ou queira usar porque se sente bem. Não permita a delimitação de sua identidade sob nenhuma circunstância, não permita que a expressão de seu corpo seja cerceada ou submetida pela aceitação alheia.

Os tempos mudam e podem mudar para melhor. Já não é mais segredo que o segredo da Victoria, tem ficado cada vez mais escancarado. Explico, Ed Razek, diretor criativo da Victoria’s Secret em uma infame entrevista para a Vogue se opôs à contração de modelos plus-size e modelos trans, porque pode interferir na “fantasia” que a marca vende. Que fantasia é essa em que só um biotipo de mulheres pode participar? A quem interessa despertar essa ‘fantasia’, aos homens? Isso não poderia ser mais tolo ou sexista. Vender a confiança e o bem-estar de uma mulher de acordo com uma métrica patriarcal. Bem, como em casa de ferreiro, o espeto é de pau, a marca viu suas vendas declinarem – como Naomi Campbell despencando graciosamente na passarela de Vivienne Westwood em 1993 – em resposta à ausência de inclusão. Os mais cínicos questionarão: ah, esse modismo da inclusão está virando uma
ditadura. Quem não lacra, não lucra”. Realmente, fazer com que os vários tipos de beleza, cores e corpos sejam celebrados, em um planeta habitado por milhares de etnias se relacionando, deve fazer pouco sentido mesmo contemplar cor de pele, tamanhos, e gostos. Ir na direção da diversidade não é só uma tendência mundial, como está fazendo com que outras empresas ganhem mais participação de mercado. É o exemplo da coleção de lingerie de Rihanna que oferece produto para todos os tamanhos, em um mercado aquecido e em pleno crescimento. Segundo, a Zion Market Research, empresa que promove pesquisas de mercado, até 2024, o mercado global de lingeries valerá US$ 59 bilhões. Nunca foi tão lucrativo ser progressista, olhar pra frente e encarar o mundo com a sua riqueza não só material como humana. Em um lugar em que a participação popular pode obstaculizar o egoísmo e privilégios, nunca foi tão plural ser singular como agora.

***A coluna lamenta profundamente a morte do o modelo mineiro, Tales Cotta (25), ocorrida na 47ª edição do SPFW. Que sua família encontre conforto e resiliência para seguir em frente, diante de uma morte inexplicável e tão trágica. Descanse em paz, Tales!

Dando sequência ao desafio da edição anterior do Demasiado, hoje o clipe estrelado por uma supermodelo é Uptown Girl, da boyband irlandesa Westlife que fez muito sucesso no final da década de 90 e comecinho da década de 2000, estrelada por ninguém menos e ninguém mais que Claudia Schiffer. Confiram!

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais sobre Demasiado

PUBLICIDADE

TRENDING

POP Mais no #Twitter

Topo